
A construção civil recuou 0,4% no segundo trimestre de 2026, segundo os dados do PIB divulgados pelo IBGE em 1º de setembro. No mesmo período, a economia brasileira cresceu 0,5%. No acumulado do semestre o setor ainda sustenta alta de 1,1%, mas a inflexão incomoda: com a Selic em 14% ao ano e o crédito mais caro, a margem das obras passou a ser disputada centavo a centavo. Este artigo mostra o que os números significam na prática para construtoras, incorporadoras e empresas de engenharia, e o que dá para fazer ainda neste semestre para proteger o resultado.
O que os números do IBGE mostram
O resultado do segundo trimestre não é uma catástrofe. É um aviso. A construção vinha crescendo acima da média da economia e agora anda na contramão dela. O quadro abaixo resume os indicadores que cercam a decisão de investir (ou segurar) uma obra neste momento:
| Indicador | Resultado | Referência |
|---|---|---|
| PIB da construção (trimestre contra trimestre) | −0,4% | 2º tri/2026, IBGE |
| PIB da construção (contra o 2º tri/2025) | +1,0% | IBGE |
| PIB da construção (acumulado do semestre) | +1,1% | IBGE |
| PIB do Brasil (trimestre contra trimestre) | +0,5% | 2º tri/2026, IBGE |
| Taxa Selic | 14% ao ano | Copom, ago/2026 |
| Empregos formais no setor (1º semestre) | +168.962 vagas | CBIC/Novo Caged |
| Projeção CBIC para a construção em 2026 | +1,2% | CBIC, set/2026 |
O setor demitiu? Não: foram quase 169 mil vagas formais abertas no semestre, com 3,1 milhões de trabalhadores empregados em junho. O que travou foi o ritmo de novos investimentos. A economista chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, disse que o resultado preocupa “sobretudo pelos possíveis reflexos nas decisões de novos investimentos”. Ainda assim, a entidade manteve a projeção de crescimento de 1,2% no ano, apoiada no Minha Casa, Minha Vida e nas obras de infraestrutura e concessões.
Por que a construção anda na contramão do PIB
A explicação começa no custo do dinheiro. A Selic está em dois dígitos desde 2022 e hoje ocupa o patamar de 14% ao ano. Para quem financia produção longa (uma obra leva 18, 24, 36 meses), cada ponto de juro corrói a viabilidade do empreendimento. Já detalhamos esse mecanismo no artigo sobre a Selic a 14% e o custo da obra.
Há ainda o lado da demanda: as pequenas obras e reformas, que dependem do consumo das famílias, perderam fôlego com o endividamento elevado, e esse segmento pesa no PIB da construção. E o lado do custo: o INCC subiu 0,85% só em agosto, puxado pela mão de obra. Contrato fechado a preço cheio, sem cláusula de reajuste, é margem evaporando mês a mês.
Quanto isso custa na prática: uma simulação
Considere uma construtora de médio porte com receita anual de R$ 6 milhões e margem líquida planejada de 10%, ou seja, R$ 600 mil de resultado no ano. Para tocar as obras, ela mantém capital de giro médio de R$ 1,5 milhão, financiado a Selic mais spread bancário (perto de 18% ao ano no crédito PJ para o setor).
Só de custo financeiro, são cerca de R$ 270 mil no ano. Quase metade da margem planejada. Se, além disso, o INCC acumular 6% em doze meses e os contratos não tiverem reajuste, outros R$ 150 mil a R$ 200 mil de custo entram sem receita correspondente. No papel, a empresa “cresce”; no caixa, o resultado do ano pode virar pó. É esse o retrato que o recuo de 0,4% no PIB setorial antecipa: obras que continuam rodando, mas com resultado cada vez mais fino.
Cinco medidas para proteger a margem no 2º semestre
1. Apure o resultado por obra, não pela média da empresa
Com margem apertada, a média esconde o problema: uma obra saudável banca duas deficitárias e ninguém percebe. O método POC (Percentage of Completion) e o acompanhamento de custo por m² e margem por obra mostram onde o dinheiro está vazando enquanto ainda dá tempo de corrigir.
2. Revise o regime tributário antes do fim do ano
Quando a margem comprime, a diferença entre Lucro Presumido e Lucro Real pode representar vários pontos percentuais de resultado. Para incorporações, o RET da Lei nº 10.931/2004 (alíquota unificada de 4% sobre a receita) segue sendo, em muitos casos, a opção mais eficiente. Exige patrimônio de afetação e análise caso a caso, e a janela de planejamento para 2027 é agora, no segundo semestre.
3. Reprecifique contratos e inclua cláusula de reajuste
Orçamento novo sem cláusula de reajuste por INCC é aposta contra a banca. Nos contratos em andamento, vale renegociar aditivos com base na variação real de custos, documentada pela contabilidade de obra.
4. Reduza a dependência de capital de giro caro
Cronograma físico financeiro bem casado com o recebimento (medições, repasses, permutas) reduz o volume financiado a 18% ao ano. Cada R$ 100 mil a menos de giro tomado são R$ 18 mil por ano de volta para a margem.
5. Prepare a empresa para 2027
Em 2026 o IBS e a CBS da Lei Complementar nº 214/2025 rodam em fase de teste, e a partir de 2027 a CBS passa a valer de fato, com o split payment em adoção gradual. Quem chegar em 2027 sem os créditos mapeados e o fluxo de caixa redesenhado vai sentir o aperto duas vezes.
Como atravessar o segundo semestre
O recuo de 0,4% não muda o fundamento: há obra contratada, emprego em alta e projeção de crescimento de 1,2% no ano. O que muda é a tolerância a erro, que ficou perto de zero. As empresas do setor que atravessam bem os ciclos de juro alto são, quase sempre, as que enxergam o resultado por obra em tempo real e decidem com número na mão.
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Perguntas frequentes
O PIB da construção caiu quanto no 2º trimestre de 2026?
Recuou 0,4% na comparação com o 1º trimestre, na série com ajuste sazonal do IBGE. Na comparação com o 2º trimestre de 2025, houve alta de 1,0%, e o acumulado do primeiro semestre é de +1,1%.
A construção civil está em crise?
Não. O setor abriu quase 169 mil vagas formais no semestre e a CBIC mantém projeção de crescimento de 1,2% em 2026. O que existe é uma desaceleração provocada pelo custo do crédito, e ela exige gestão financeira mais rigorosa.
Por que a Selic afeta tanto a construção?
Porque o setor financia produção de ciclo longo. Com a Selic em 14% ao ano, o custo do capital de giro e do financiamento à produção consome uma fatia relevante da margem, e parte dos compradores adia a compra pelo encarecimento do crédito imobiliário.
O que uma construtora pode fazer agora para proteger a margem?
Apurar o resultado por obra (POC e custo por m²), revisar o regime tributário para 2027, incluir cláusulas de reajuste por INCC nos contratos, reduzir o capital de giro financiado e mapear os efeitos do IBS e da CBS no fluxo de caixa.
O RET ainda vale a pena com margem comprimida?
Em muitos casos, sim: o RET da Lei nº 10.931/2004 unifica os tributos federais em 4% da receita da incorporação, o que dá previsibilidade justamente quando a margem está apertada. Mas a resposta depende da estrutura de custos de cada empreendimento, por isso a análise deve ser feita caso a caso.
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